Glossário de IA jurídica
Os termos que aparecem nas aulas, guias e casos — explicados em 2–3 frases, cada um com um exemplo jurídico concreto. Linkável de qualquer página: use a âncora ao lado de cada termo.
- Agente de IA
Sistema em que a IA não só responde, mas executa uma sequência de ações e usa ferramentas para cumprir um objetivo, com alguma autonomia entre os passos.
Exemplo jurídico: Um agente poderia, em tese, ler uma intimação, extrair o prazo e sugerir um lançamento na agenda — mas a conferência humana no sistema do tribunal continua obrigatória.
- Alucinação
Quando a IA gera uma informação que parece verdadeira mas é falsa ou inventada. Não é um erro raro — é uma consequência de o modelo prever o provável, não o verdadeiro.
Exemplo jurídico: A IA cita um 'REsp 1.987.654/RS' com relator e data que não existem: a tese pode ser real, mas a fonte foi alucinada. Sempre confira no tribunal.
- Anonimização
Processo de remover ou substituir dados que identificam uma pessoa (nome, CPF, número de processo) antes de usar um documento em ferramenta externa. Não é só apagar o nome.
Exemplo jurídico: Antes de colar um contrato numa IA, troque razões sociais, CNPJ e valores por marcadores como [PARTE-A] — a análise de risco sai igual.
- API
Interface que permite a um sistema conversar com o modelo de IA por código, em vez de pela tela. É como plataformas jurídicas integram IA aos seus produtos.
Exemplo jurídico: Um software de gestão de escritório pode usar a API de um modelo para resumir andamentos automaticamente dentro do próprio sistema.
- Assistente vs. ferramenta dedicada
Assistente generalista (ChatGPT, Claude) faz de tudo um pouco; ferramenta jurídica dedicada é especializada, muitas vezes com base verificável e fluxos prontos.
Exemplo jurídico: Para pesquisa de jurisprudência com fonte confiável, uma ferramenta dedicada tende a superar o assistente genérico, que pode alucinar precedentes.
- Base de conhecimento
Conjunto de documentos confiáveis que uma ferramenta usa para fundamentar respostas (via RAG). A qualidade da base define a confiabilidade da saída.
Exemplo jurídico: Uma ferramenta de pesquisa com base de jurisprudência atualizada é mais confiável para citar precedentes do que um chatbot sem base.
- Cadeia de raciocínio (chain-of-thought)
Técnica de pedir que a IA explicite os passos do raciocínio antes de concluir, o que costuma melhorar respostas em tarefas complexas.
Exemplo jurídico: Pedir 'analise cláusula por cláusula e só então classifique o risco geral' costuma dar um resultado melhor do que pedir a conclusão direto.
- Chatbot
Interface conversacional que responde em linguagem natural. Muitos chatbots são baseados em LLMs, mas nem todo uso de IA é via chatbot.
Exemplo jurídico: Colar uma pergunta jurídica no chatbot e receber uma resposta genérica é diferente de usar uma ferramenta com base verificável — o chatbot pode alucinar.
- Confabulação
Sinônimo mais técnico de alucinação: a IA preenche lacunas com informação plausível inventada, com aparência de segurança.
Exemplo jurídico: Perguntar 'esse julgado existe?' à própria IA pode gerar confabulação — ela pode confirmar a própria invenção. Confira sempre na fonte.
- Contexto (no prompt)
As informações de fundo que você fornece à IA para calibrar a resposta ao seu caso: quem é você, qual a situação, qual o objetivo.
Exemplo jurídico: Informar 'sou advogado do réu em ação de cobrança' muda completamente a contestação que a IA rascunha, em relação a um pedido sem contexto.
- Custo por token / plano
Ferramentas de IA cobram por uso (tokens) ou por assinatura. Entender o modelo evita surpresas e ajuda a calcular o ROI real, incluindo revisão e treinamento.
Exemplo jurídico: Um escritório com alto volume pode achar mais previsível um plano fechado; um autônomo eventual pode usar planos gratuitos com limites.
- Data de corte (knowledge cutoff)
A data até a qual o modelo foi treinado. Ele não conhece, por padrão, fatos ou normas posteriores a esse ponto — e nem sempre avisa quando está desatualizado.
Exemplo jurídico: Se uma lei mudou após a data de corte, a IA pode responder com a redação antiga com total confiança. Por isso normas se conferem na fonte.
- Embedding
Representação numérica de um texto que captura seu significado, permitindo comparar semelhança entre documentos. É a base de buscas semânticas e do RAG.
Exemplo jurídico: Uma busca por embedding encontra acórdãos sobre o mesmo tema mesmo que usem palavras diferentes das que você digitou.
- Fine-tuning (ajuste fino)
Processo de treinar adicionalmente um modelo com exemplos específicos para especializá-lo em um domínio ou estilo. Diferente de apenas dar instruções via prompt.
Exemplo jurídico: Uma plataforma jurídica pode fazer fine-tuning para que o modelo escreva no estilo padrão de peças de um determinado tribunal.
- Guardrails (salvaguardas)
Restrições e regras que limitam o que a IA pode fazer ou dizer, para segurança e conformidade. Podem ser do fornecedor ou definidas por você no prompt.
Exemplo jurídico: Uma salvaguarda no seu prompt — 'não invente números de acórdão; oriente onde buscar' — reduz o risco de citação alucinada.
- IA generativa
Categoria de inteligência artificial que cria conteúdo novo (texto, imagem, código) em vez de apenas classificar ou prever rótulos. Os modelos de linguagem que geram peças e resumos são IA generativa.
Exemplo jurídico: Pedir a uma IA que rascunhe a seção 'Dos Fatos' de uma inicial é usar IA generativa — ela produz texto novo, que você revisa e assina.
- Iteração
Ajustar a resposta da IA por refinamentos sucessivos ('deixe mais direto', 'adicione um exemplo') em vez de recomeçar do zero. A conversa mantém o contexto.
Exemplo jurídico: Em vez de reescrever o prompt de uma cláusula, peça 'torne a redação mais protetiva ao contratante' e itere até chegar ao ponto.
- Janela de contexto
A quantidade máxima de texto (em tokens) que o modelo consegue considerar de uma vez — o que você envia mais o que ele responde. Além dela, o modelo 'esquece' o começo.
Exemplo jurídico: Alguns modelos aguentam um contrato inteiro na janela de contexto; outros exigem que você resuma ou divida os autos antes de analisar.
- LGPD
Lei Geral de Proteção de Dados. Regula o tratamento de dados pessoais no Brasil. O uso de IA com dados de clientes precisa observar suas bases legais e princípios [VERIFICAR].
Exemplo jurídico: Enviar dados pessoais de um cliente a um fornecedor de IA sem base legal e sem controle expõe o escritório como controlador dos dados.
- LLM (modelo de linguagem grande)
Large Language Model. Modelo treinado em enormes volumes de texto para prever a próxima palavra mais provável. É a tecnologia por trás de ferramentas como ChatGPT e Claude.
Exemplo jurídico: Quando você cola um contrato e pede um resumo, o LLM prevê palavra a palavra o texto do resumo — sem consultar um banco de leis.
- MCP (Model Context Protocol)
Protocolo aberto que padroniza como modelos de IA se conectam a ferramentas e fontes de dados externas, funcionando como um 'plugue universal' entre a IA e sistemas.
Exemplo jurídico: Via MCP, um assistente poderia consultar uma base de documentos do escritório de forma controlada, em vez de depender só do que você cola no chat.
- Multimodal
Modelo capaz de processar mais de um tipo de entrada — texto, imagem, áudio. Permite, por exemplo, analisar um documento digitalizado além de texto puro.
Exemplo jurídico: Uma IA multimodal pode ler o print de uma intimação em imagem; ainda assim, o prazo oficial é o do sistema do tribunal.
- On-premises / nuvem
Onde o processamento acontece: on-premises é em servidores próprios; nuvem é em servidores do fornecedor. Relevante para decisões de sigilo e LGPD.
Exemplo jurídico: Um escritório com dados muito sensíveis pode perguntar ao fornecedor se há opção on-premises ou onde, na nuvem, os dados ficam armazenados.
- Overfitting
Quando um modelo aprende demais os exemplos de treino e generaliza mal para casos novos. Termo mais técnico, útil para entender por que ferramentas erram fora do padrão.
Exemplo jurídico: Um modelo muito ajustado a um tipo de contrato pode ter dificuldade com uma cláusula atípica — que é justamente onde o olho humano importa mais.
- Parâmetros
Os valores internos que o modelo ajusta durante o treinamento e que determinam seu comportamento. Modelos maiores têm mais parâmetros — não confundir com precisão jurídica.
Exemplo jurídico: Um modelo com mais parâmetros escreve com mais fluência, mas fluência não é verdade: ele continua podendo inventar um julgado.
- Prompt
A instrução ou pergunta que você envia à IA. A qualidade da resposta depende diretamente da qualidade do prompt: contexto, tarefa clara, formato e restrições.
Exemplo jurídico: 'Explique responsabilidade civil subjetiva para estudante de OAB, em 6 linhas, com exemplo' é um prompt bom; 'explica responsabilidade civil' é um prompt fraco.
- Prompt injection
Ataque em que instruções maliciosas escondidas em um conteúdo fazem a IA desviar do comportamento esperado. Risco relevante ao processar documentos de terceiros.
Exemplo jurídico: Um documento recebido da parte contrária poderia, em tese, conter texto que tenta manipular sua IA — mais um motivo para revisar toda saída.
- Prompt template (modelo de prompt)
Prompt reutilizável com variáveis a preencher, padronizado para uma tarefa recorrente. Base de uma biblioteca de prompts de escritório.
Exemplo jurídico: O prompt de contestação do Hub é um template: você preenche resumo da inicial, teses e preliminares, e ele gera o rascunho estruturado.
- Prova pré-constituída (em contexto de IA)
Lembrete prático: a IA não produz prova. Documentos e fatos precisam existir e ser verificados — a IA apenas organiza e redige a partir do que você fornece.
Exemplo jurídico: A IA pode estruturar um mandado de segurança, mas o direito líquido e certo depende de prova pré-constituída que só você reúne e junta.
- RAG (geração aumentada por recuperação)
Retrieval-Augmented Generation. Técnica que conecta o modelo a uma base de documentos confiável: a IA busca trechos relevantes e gera a resposta a partir deles, reduzindo alucinação.
Exemplo jurídico: Uma ferramenta jurídica com RAG sobre uma base de jurisprudência real tende a citar julgados verificáveis, em vez de inventá-los como um chatbot genérico.
- Rastreabilidade
Capacidade de registrar quem usou IA, em qual peça e com qual revisão. Fundamental para governança em escritórios e para auditoria.
Exemplo jurídico: Uma política de uso de IA prevê rastreabilidade: se um erro passar, o escritório sabe onde olhar e prova sua diligência.
- Responsabilidade objetiva (do fornecedor de IA)
No contexto de consumo, dever de indenizar independente de culpa. Aqui, um lembrete: a responsabilidade profissional pelo conteúdo gerado por IA é sempre do advogado que assina.
Exemplo jurídico: Se uma peça com citação alucinada é protocolada, a responsabilidade é do advogado — 'foi a IA' não é defesa perante o cliente ou o tribunal.
- Revisão humana obrigatória
Princípio de que nenhum conteúdo gerado por IA é protocolado ou enviado sem que um profissional revise e assuma a responsabilidade. É a regra central do uso profissional.
Exemplo jurídico: Mesmo com um rascunho perfeito à primeira vista, a revisão humana confere citações e decide a estratégia — a IA rascunha, o humano assina.
- Sigilo profissional
Dever ético do advogado de proteger informações confiadas pelo cliente. Inserir dados sigilosos em ferramenta que os usa para treinamento pode violá-lo.
Exemplo jurídico: Colar os autos de um cliente, com nomes reais, numa IA gratuita que treina com o input é um risco concreto ao sigilo — anonimize antes.
- Skill
Pacote de instruções e recursos que estende o que a IA faz de forma padronizada e reutilizável, ativado quando a tarefa corresponde à sua especialidade.
Exemplo jurídico: A skill 'extrator-de-prazos' do Hub lê intimações e devolve os prazos em tabela — sempre com a ressalva de conferir a data no sistema oficial.
- System prompt
Instrução de fundo que define o comportamento e o papel da IA ao longo de toda a conversa, separada da mensagem do usuário. Estabelece regras persistentes.
Exemplo jurídico: Um system prompt pode fixar 'você é assistente jurídico e sempre marca citações legais com [VERIFICAR]', valendo para todas as perguntas seguintes.
- Temperatura
Parâmetro que controla a aleatoriedade das respostas. Temperatura baixa gera respostas mais previsíveis e conservadoras; alta, mais criativas e variadas.
Exemplo jurídico: Para redigir uma cláusula contratual você quer temperatura baixa (precisão); para um brainstorm de teses, uma temperatura maior pode ajudar.
- Token
A menor unidade de texto que o modelo processa — geralmente um pedaço de palavra. O custo e o limite de uma IA costumam ser medidos em tokens, não em caracteres.
Exemplo jurídico: Um contrato de 20 páginas pode consumir milhares de tokens; saber isso ajuda a entender por que há limite de tamanho ao colar documentos longos.
- Viés (bias)
Tendências sistemáticas nas respostas do modelo, herdadas dos dados de treino. Pode reproduzir estereótipos ou visões enviesadas de forma sutil.
Exemplo jurídico: Ao gerar a descrição de um caso, a IA pode assumir papéis estereotipados das partes — revise para que a peça reflita os fatos, não vieses.
- Zero-shot / few-shot
Zero-shot é pedir uma tarefa sem exemplos; few-shot é fornecer alguns exemplos no próprio prompt para guiar o formato da resposta.
Exemplo jurídico: Dar dois exemplos de como você quer o resumo de um julgado (few-shot) faz a IA seguir seu padrão melhor do que só descrever (zero-shot).